PREMIADO EM CANNES, FILME DE ERYK ROCHA EVIDENCIA ATUALIDADE DO CINEMA NOVO

Era uma sexta à tarde. Naquele tempo, eu ainda dirigia e estava no meu carro indo ao aeroporto pegar Eryk Rocha. À noite, haveria sessão de “Rocha que Voa”, primeiro longa do jovem cineasta. Eu vivia, com especial intensidade, a segunda edição do Panorama. Um Panorama cuja sede era uma Walter da Silveira fervilhante e com noites intermináveis no restaurante Quixabeira, ali nos Barris.
Lembro-me de ter ficado impressionado com Eryk, oito anos mais novo que eu. Eu o achei muito seguro, apaixonado, com posições firmes e focado em sua carreira que estava começando. Mas, quando chegamos na Sala Walter da Silveira, que estava completamente lotada, as pernas daquele jovem cineasta ficaram nitidamente bambas. Ao microfone, a voz de Eryk embargou. A segurança de antes o havia abandonado. A emoção havia dominado Eryk. Uma forte energia circulava pela sala!

Durante a sessão de “Rocha que Voa”, eu compreendi, aos poucos, que estava diante de um reencontro afetivo e estético. Eryk era o mediador entre Glauber Rocha e a Bahia. Ele sabia disso, daí ter titubeado. A responsabilidade era grande e estava em boas mãos!
Para quem não se lembra ou não viu, “Rocha que Voa" opta por uma composição narrativa fragmentada e, por vezes, em aspiral com núcleos independentes. Somos jogados no tempo e espaço de uma forma pensada, planejada e muito amorosa. Temos Glauber em seu período cubano, com fotos, imagens e áudios sem que um elemento se sobreponha ao outro. Não há disputa entre som e imagem, mas uma ligação que potencializa um e outro, em total respeito à força de ambos.
Mais de uma década após essa sessão, Eryk construiu uma das mais interessantes carreiras cinematográficas do nosso país. Circulou com “Rocha que Voa”, “Pachamama”, “Transeunte”, “Jards” e “Campo de Jogo” por centenas de festivais pelo mundo todo. Filmou com dinheiro e sem dinheiro. Misturou o real com o imaginário, em filmes claramente autorais. Com “Cinema Novo”, seu mais novo longa, ele ganhou Cannes! Prêmio de Melhor Documentário, para o nosso orgulho e alegria!
Em “Cinema Novo”, Eryk trilha por caminhos semelhantes aos de “Rocha que Voa”. Desta feita, ele se debruça sobre o movimento que projetou o cinema brasileiro para o mundo. Faz junções entre filmes e entrevistas, utiliza farto material de arquivo, em uma montagem brilhante, que não nos deixa perder o fôlego.
Eu não gosto de tratar “Cinema Novo” como homenagem, pois Eryk rearticula filmes, planos e sons. Não há sacralidade, aqui. Ele não se deixa intimidar pela grandeza dos filmes e altera, remonta e confere novos significados ao juntar planos e mesclá-los a depoimentos diversos. Sempre, de forma absolutamente coerente. Não estamos diante de um passado congelado, mas eterno, porque belo e pulsante. O movimento Cinema Novo está vivo, com suas elaborações e questões, que continuam, em sua maioria, atuais.
Ver o filme nos possibilita reconectar ao movimento e à atmosfera daquela época. Ao ver o filme, eu me senti orgulhoso por fazer cinema no Brasil e, de alguma maneira, ser parte da mesma família de Joaquim Pedro de Andrade, Glauber Rocha, Cacá Diegues, Leon Hirszman, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Paulo Cesar Saraceni... tudo bem que toda família tem seus “malas” e Arnaldo Jabor está ali para não desmentir essa máxima.
Eles todos eram amigos, se ajudavam e se admiravam. Em determinado momento, Leon Hirszman fala sobre a forte influência exercida por Nelson Pereira dos Santos sobre todos e como ele o fez optar pelo cinema. Havia muita generosidade e camaradagem entre eles. 

Parece-me particularmente marcante quando Glauber aparece pela primeira vez no filme. Ele fala pausadamente não sobre si, mas sobre as referencias do movimento, daquela juventude. Glauber fala sobre Humberto Mauro, sua importância para o ontem e para o sempre! A obra de Humberto  Mauro fica, a cada dia que passa, mais resistente. O Cinema Novo não partiu do zero, não inventou a roda. As referências foram importantes para que eles se sentissem integrados à realidade.
Aqueles jovens buscaram conhecer o país onde viviam e queriam trazer o povo para as telas. Elaboraram, assim, uma forma própria de se comunicar. O Cinema Novo optou por equipamentos leves, por uma luz menos industrial, e foi reconhecido por sua inventividade e sofisticação.
“Cinema Novo” funciona para os iniciados em cinema brasileiro, aqueles que vão reconhecer e se orgulhar das cenas e pessoas na telona. Como não se emocionar diante de Grande Otelo, Othon Bastos e Jofre Soares?
Mas, também, o filme funciona para quem não possui conhecimento prévio, mas se deixa levar pela força da montagem e pela potência do movimento.
Desde que “Rocha que Voa” foi exibido em Salvador, muita coisa mudou. Mas, novamente Eryk nos proporcionará uma sessão marcante! Desta feita, no cinema que leva o nome do seu pai Glauber Rocha. Uma sessão histórica!

SERVIÇO
Competitiva Nacional I - 10 de novembro, às 19h50, no Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha (Sala 1). Ingressos: R$ 10,00 / R$ 5,00
- Filmes:
Confidente, de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes (RJ)
Interdito, de Leon Sampaio (BA)
Cinema Novo, de Eryk Rocha (RJ)
Conversa com os diretores após a sessão
Em Cachoeira, o filme será exibido no dia 09/11, às 20h, no Cine Theatro Cachoeirano.

FONTE: C24H



Share on Google Plus

About Ana Lúcia Leal da Silva

This is a short description in the author block about the author. You edit it by entering text in the "Biographical Info" field in the user admin panel.